Ser feliz ou ter razão?

Toda vez que escuto isso fico pensando. É como se estivéssemos falando: eu não vou mais falar o que eu penso pois o outro é um Zé mané que não é capaz de compreender que sou eu que tenho razão? E ser feliz? Será que a ideia de ser feliz significa que não teremos desafios nas relações e divergências nos pontos de vista?

Pois para mim, o que sinto é que abrimos mão da conexão com o outro para termos uma falsa sensação que a harmonia e as relações bem sucedidas tem a ver com concordar com tudo que o outro faz, quer, pensa ou deseja para sua vida.

Nesse último mês, o assunto que venho participando intensamente na minha própria vida é o relacionamento com o outro, o “eu com uma outra pessoa”.
E para mim, esse “eu” aparece como um dos meus maiores desafios na vida.

Historicamente, quando me vi uma pessoa mais madura do que uma criança, por volta dos 12 anos, eu já queria virar uma avestruz para me esconder embaixo da terra de tanta vergonha, de tanta inadequação no físico, nas roupas, no conjunto da obra que eu me via e até na maneira ingênua de fazer perguntas tão idiotas em público.

E bastava uma pessoa verbalizar alguma piadinha de “mau gosto” em relação a algo pessoal meu, que eu já me identificava tão imensamente que o caminho que escolhi seguir só era confirmado e fortalecido. O caminho dizia mais ou menos assim: Cada vez mais eu teria que me proteger, me esconder e me adequar a ser algo mais bacana que ser simplesmente eu, aquele poço de pequenos defeitos.

E assim, de uma forma geral, consegui sobreviver. Parei com tudo: com me arriscar fazer perguntas idiotas para qualquer um, parei de tentar conquistar o namoradinho que eu queria, de ser tão espontânea e cheia de expectativas sobre uma vida bem incrível. Nessa altura era como se eu já tivesse “me colocado no meu lugar”.

E dentro do cenário da minha vida eu já achava que já tinha até conquistado muito: Consegui uma vaga de gente boa na turma do fundão. Consegui ser mais para descolada do que nerd e consegui diminuir a tensão de ir para a próxima fase da vida, como diziam meus irmãos: Você tá de boa? É que você não sabe como é o ginásio. E assim sucessivamente para colegial, faculdade, trabalho, casamento e por aí vai.

E assim, o outro, naturalmente, virou o inimigo. Nada declarado, apenas um sentir, da porta para dentro e sem consciência alguma. O sentimento era mais ou menos assim: Uma fortíssima atração pela troca, por estar com o outro, por ter parceiros de trabalho, de vida, de amor, vontade da alma de construir família e no sentido antagônico, um medo discreto e visceral de estar com o outro de verdade.

Hoje vejo que aparecia claramente em algumas atitudes práticas, como fingir não estar tão envolvida pelo gatinho que eu já estava apaixonada para não ficar frustrada. Fazer algo que nem queria tanto como beber, fumar e outras para fazer parte do grupo, mas é claro que depois eu ia tomando gosto pela coisa. Mais madura vejo outras atitudes que foram se formando como o não colocar limite para as demandas do outro, a fofoca e o julgamento (a tal da avaliação: isso é certo ou errado), todos uma forma criar uma imagem melhor da obra, no caso: ser eu.

Pense comigo na fofoca, por não ter coragem de falar algo para a própria pessoa eu vou e falo para o outro, assim, para o “sem noção”, a pessoa a quem a fofoca refere-se, eu crio uma imagem do bonzinho pois ele nem imagina que estou falando mal dele e para quem eu fiz a fofoca, vou reunindo uma legião de aliados que como eu acham essa tal pessoa uma sem noção realmente. Imagem! Imagem! Imagem!

Tudo para me sentir amada. Por todos se possível.

Relação é coragem. Quando falo isso, penso em relação de intimidade, onde queremos mesmo conexão. Não acho que devemos ter intimidade e conexão com o mundo todo. Mas com as poucas pessoas que são nossas relações escolhidas e lapidadas, como um casamento, uma sociedade, a irmandade, amigos profundos e íntimos e até a relação madura com nossos pais. Nesse espaço, precisamos dar o todo, a verdade, apresentar aquela pessoa inadequada e sem sal que foi abandonada em algum momento da nossa história. Falo dessa pois tenho familiaridade, os arrogantes, rebeldes e que falam “tudo que pensam” na certeza que eles são os certos, estão na mesma, a barreira é fugir da conexão: do ser real, imperfeito, alguém que erra, que tem medo, inseguranças e que não se acha merecedor do amor verdadeiro.

Pense agora do contrario. Lembre-se de alguém que você ama incondicionalmente, talvez sua mãe, seu pai, seu filho, seu marido, o melhor amigo. Você não sente um amor que até dói as vezes? Pois eu acredito que eles não sejam perfeitos e muitas vezes acabam causam até alguns bons incômodos na sua vida, não? Pois bem, se você pode sentir isso por alguém é certo, algumas pessoas podem sentir isso por você, acredite com todas as forças que você pode ser amado como nem é capaz imaginar. E o mais importante! Ser amado e ser quem você é integralmente, sem edições, sem máscaras.

E confie que quando você vier com tudo, incluindo todo o pacote de que você tem: inseguranças e dúvidas sobre si mesmo, só com isso poderá vir também sua maior alegria, fluidez, paz de espírito e espontaneidade para estar com o outro.

Hoje eu acredito plenamente no amor. Mas realmente não fui preparada para isso. Repetidas vezes me percebo buscando ter razão, buscando fazer com o outro concorde 100% comigo e abençoe todas as minhas atitudes. Mas hoje também posso dizer que sempre que consigo superar meu “ego” e então voltar atrás para sair de uma briga que tem em jogo manter a ilusão de uma falsa harmonia, eu vejo o quanto a cena muda instantaneamente. É como uma mágica.

Portanto o caminho que eu vejo chama-se vulnerabilidade. Sair do ideal, da mania de harmonia, para construir relações de verdade, com conexão e coragem para serem duas potências que se potencializam ainda mais, por estarem inteiras.

*Marcia Freire Mello é consultora de Inovação e empresária . Ela juntou Marketing, negócios e pessoas e agora tem uma metodologia poderosa para ajudar as pessoas a abrirem a cabeça e transformarem as empresas e pessoas. O Be Project, a empresa da qual ela é criadora, consiste em projetos de consultoria para abrir a cabeça e cutucar as pessoas para que saiam da zona de segurança e promovam as mudanças que desejam nas empresas, produtos e projetos corporativos que estão envolvidos. Através de bate-papo, LABs, técnicas como improviso e constelação e conteúdo científico e claro, a equipe do Be Project deseja formar pessoas mais empoderadas, espontâneas e com coragem para errar e acertar. Assim, co criação, inovação e resultados concretos em vendas e desempenho acontecem naturalmente.

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Marcia Mello

Consultora de marketing, inovação e empresária. Ela juntou marketing, negócios e pessoas e criou uma metodologia poderosa, para ajudar quem quer transformar sua vida e abrir a cabeça para algo realmente novo. A sua empesa, Be Project, realize projetos de consultoria para trazer novos horizontes e cutucar as pessoas para que, saiam da zona de segurança e promovam as mudanças que desejam nas empresas, produtos e projetos corporativos que estão envolvidos. Através de reuniões, encontros de brainstorm e laboratórios práticos, o Be Project entrega soluções de alta-performance onde cocriação, inovação e resultados concretos em vendas, posicionamento e desempenho acontecem naturalmente.

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